::A RELACÃO FAMILIA - ESCOLA ::
OS PROCESSOS DE formação de alunos de educação infantil e séries iniciais
Adriana Moreno Senna[1] Eunice Maria Nonato²
RESUMO:
Este artigo versa sobre as contribuições que uma sadia relação Família / Escola podem trazer para o processo de aprendizagem dos alunos. Para tanto, foi realizado uma pesquisa bibliográfica que serviu para constatar que é preciso, sim, que haja uma estreita relação entre estas duas estruturas tão importantes para o aluno, que é a Família e a Escola, a fim de que, juntos, possam achar soluções quando problemas interferem no aproveitamento dos alunos, também no sentido de compartilharem sugestões de melhoria para o processo ensino-aprendizagem.
Palavras-chave: Família. Escola. Aprendizagem do aluno.
ABSTRACT:
This article turns on the contributions that a healthy relation Family/School can bring for the learning process of the pupils. For in such a way, it was carried through study descriptive, that inserted a bibliographical research that served to evidence itself that she is necessary, yes, that it has a narrow relation enters these two so important segments for the pupil, who is the Family and the School, so that, together, can find solutions when problems intervene with the exploitation of the pupils, also in the direction to share suggestions of improvement for the process teach-learning.
Word-key: Family. School. Learning of the pupil.
INTRODUÇÃO
A escola, por muito tempo, entendeu a presença dos pais como certo desconforto. Seja de que lado viesse, a solicitação era entendida como queixa e até como invasão. Hoje, cada vez mais, a participação e a inclusão dos pais se fazem necessárias. A organização de grupos de pais é incentivada, eles fazem parte dos conselhos escolares, podendo decidir, junto à equipe da escola, sobre vários assuntos, desde o traçado de prioridades, a construção do Projeto Político Pedagógico, à alocação de verbas, à promoção de eventos, etc. No entanto, nessa relação(família/escola), não se efetiva, ainda, uma participação harmoniosa dos pais nas decisões que se referem ao aprendizado dos alunos, à melhor forma de elencar e orientar a educação que é, ainda em menor proporção do que em tempos atrás, imposta aos alunos. Como pude observar em minhas práticas tanto na área de estágio para minha formação acadêmica, como em minha atuação profissional , nas escolas de Educação Infantil, em que em sua maioria trabalha com projetos e temas geradores, onde às vezes não condizem com a realidade e com a necessidade da sua comunidade. Com pais atuantes auxiliando no processo de escolha de alguns projetos na escola de seu filho, junto com a equipe pedagógica da mesma, as aprendizagens se tornariam mais enriquecedoras para os pequenos alunos. Nos Anos Iniciais, nas escolas cicladas, que abordam a metodologia freireana, se trabalha a partir da pesquisa de campo da comunidade local. Assim são elaborados projetos que conscientizam, educam e trazem não só os alunos, mas os pais,e conseqüentemente, a comunidade para dentro da escola e dos processos sócio-educativos que nela se oportunizam. Hoje, há uma urgência necessária da presença dos pais na escola e no processo educativo orientado aos alunos, como forma de ampliação das possibilidades tanto da escola quanto das famílias, em contribuírem para o desenvolvimento integral do aluno, como tal e como cidadão pró-ativo. Nos primeiros anos de escolaridade, o fluxo formal e informal de informações e solicitações entre família e escola costuma ser maior do que quando a criança já tem mais autonomia. Ao confiarem os filhos à educadora, os pais contam que eles serão olhados, observados, estimulados, instigados, desafiados, avaliados, encaminhados e também cuidados, alimentados, acarinhados, respeitados e queridos. Expectativas que não são apenas das classes altas e médias, mas de qualquer pai ou mãe. Na Educação Infantil essa premissa se torna muito mais forte e os pais delegam às educadoras até mesmo o papel de mãe aos seus filhos que chegam a ficar 12 horas sob seus cuidados, indo para seus lares somente para dormirem e retornarem cedo no outro dia para o cuidar e educar recebidos na escola. Cabe aos educadores e à família, auxiliar e mediar os primeiros processos inter-relacionais de aprendizagens com base na socialização e aquisição de conceitos e atitudes como fala Piaget ( fases sensório-motor, pré-operacional, concreta, formal). Já presenciei relatos onde os pais, nos finais de semana, não conseguem ter determinadas posturas e controle sob seus filhos pequenos, nem fazer combinações com os mesmos para solucionar as divergências, desde comportamental como nutricional, e se escondem atrás da autoridade da professora/educadora, intimidando seus filhos de que contarão à professora e que ela não irá gostar de tais atitudes e ela tomará providências para aquele comportamento..., enfim, a responsabilidade e atuação na resolução daquele conflito que é dos pais naquele momento, é omitida( pelos próprios pais) de todo o processo educativo que compete à eles, pois é um momento familiar, hora apropriada para instituir regras e combinações entre pais e filhos, no entanto, impera a permissividade. Nos Anos Iniciais, os professores esperam a colaboração dos pais e o envolvimento deles com as atividades de aprendizagem dos filhos. Expectativas que implicam disponibilidade para construir uma relação de confiança mútua, de diálogo e de troca de informações. Este estudo objetiva abordar essa relação Família-Escola, procurando responder; "por que a família delega toda a responsabilidade da educação nas mãos da escola?" Através de uma pesquisa bibliográfica se procurará buscar a resposta a tal questionamento, norteador do presente trabalho.
1 A RELAÇÃO FAMÍLIA-ESCOLA: EXPECTATIVAS E RESULTADOS
A relação entre a família e a escola vem apresentando, no decorrer dos anos, mudanças significativas. Embora muitos pais ainda vejam a escola como substituta na formação de seus filhos, hoje é possível vislumbrar possibilidades de cooperação mútua para um bom resultado. Cabe à família redefinir seu posicionamento, permitindo que as crianças e os jovens encontrem seu lugar na sociedade, e, assim, compreendam seus limites e suas capacidades, seus direitos e deveres dentro desta sociedade. À escola cabe determinar suas funções específicas e auxiliar a família nessa construção. A família tem na escola sua base de apoio. Família e escola são instituições distintas que têm objetivos semelhantes, pautas de desempenho próximas, mas que devem ser vistas de maneira diferente, desempenhando seus papéis sociais de forma diferente. Ambas são instituições parceiras na tarefa de educar e distintas em sua forma de abordar a educação, mas as duas - família e escola - são importantíssimas na construção de uma pessoa realizada e feliz. A educação, nos tempos atuais, tem sido considerada como essencial para que um ser humano se torne um ser ativo, interativo, produtivo, social, afetivo, honesto, apto a enfrentar as diversidades e capacitado para deduzir o que está por trás dos desafios e exigências (de toda natureza) que a pós-modernidade tem exigido de todo cidadão que pretende se tornar uma pessoa feliz e realizada. Essa educação, que é capaz de atribuir qualidades indispensáveis a um ser humano, inadequadamente é reconhecida somente como educação escolar, que hoje não se restringe mais somente àquela formação cultural e à base do domínio de informações teóricas que predominou por muito tempo - uma vez que a educação moral e religiosa vinha de casa, como atribuição da família - mas, agora, referir "Educação" é conduzir à idéia de uma formação integral, que insere conhecimentos culturais, orientação para valores morais, éticos e religiosos, capacitação para o mercado de trabalho e para a vida em sociedade, todos aspectos que passaram a ser de responsabilidade da Escola, inclusive atribuída pela Família, conforme pode ser comprovado pelas colocações de Vasconcellos: (2001, p.75)
As relações entre a escola e a família têm se modificado muito nas últimas décadas. Neste período, a escola mudou, a família mudou. Há que se considerar, no entanto, que, sobretudo, a sociedade mudou. Grosso modo, poderíamos apontar a transição de uma fase em que a família confiava plenamente na escola, estabelecendo até uma cumplici dade, para uma outra em que a família passa, de um lado a criticar a escola, e de outro, contraditoriamente, transferir suas responsabi lidades para mesma. É um pouco a situação em que vivemos hoje, já que não é aquela cumplicidade (muitos pais ensinam desde cedo os filhos a contarem "o que a professora fez com ele"), mas ao mesmo das tempo - em função das transformações que vem sofrendo - há uma tendência de atribuir à escola funções que antes eram inerentes à família (ex.: desde aprender amarrar o sapato, até a iniciação religiosa) (2001, p.75).
Irvine (2004, p. 18) salienta que "a família é a primeira unidade com a qual a criança tem (ou deveria ter) contato contínuo e é também o primeiro contexto no qual se desenvolvem padrões de socialização e problemas sociais". Como tal, a família deve servir como referência "universal" para a criança, ou seja, dela deve provir, desde o nascimento, as noções de valores morais e éticos, de ações de solidariedade e de adequação sociais, de sentimentos e emoções indispensáveis para a convivência harmoniosa em sociedade, nos diferentes grupos que passará a integrar ao longo de sua vida. No entanto, as famílias não são mais aquelas que apresentavam determinada estrutura hierárquica e seguiam padrões sociais e morais básicos, na qual eram compostas por pai (que era exemplo de virtudes, conhecimentos e capacidade de sorver as necessidades da família), mãe (dedicada, exclusivamente, aos filhos, ao marido e aos afazeres domésticos) e filhos afetivos e temerosos de cometerem erros que os afastassem dos pais e irmãos (colégios internos, etc.). Outras figuras importantes no núcleo familiar, como avós, tios/tias, padrinhos/ madrinhas eram vistos pelas crianças como adultos exemplares, muito ligados e solidários uns aos outros, formadores de verdadeiros seios familiares estruturados. Destaca-se a clara descrição de família atribuída por Hickmann (apud XAVIER, 2003, p. 75):
[...] mudanças vêm acontecendo no que diz respeito aos modelos de família existentes atualmente. O pai mantenedor, a mãe que cuida da harmonia da casa e os filhos obedientes ao pai. Esse é um modelo de família ainda absolutamente valorado nessa sociedade, e o que se percebe é que é um modelo absolutamente impossível de ser mantido, principalmente para as classes mais pobres, ou seja, para os grupos mais excluídos, onde a família igualitária é, vamos dizer, o modelo possível, em que todos têm que trabalhar, em que primeiro os filhos mais velhos e a mulher são envolvidos no mercado de trabalho, tornando-se a figura do pai extremamente fragilizada. Esse homem, que não consegue sequer botar comida em casa, é um indivíduo cada vez mais sujeito ao alcoolismo, às doenças mentais, isso quando não acaba por assumir a ta da "síndrome do pequeno poder", em que o homem, destituído de seu poder, vai, através da violência, se impor junto à mulher e aos filhos.
Assim, a família pautada na figura masculina paterna, como o centro da família hierárquica e patriarcal, deixou de ser o modelo familiar predominante, e deu lugar a famílias consideradas "desestruturadas", mas, que, na verdade, na realidade deste período histórico em todos os seres humanos estão vivendo, essas outras estruturas familiares passam a ser a normalidade em termos de seio familiar na qual o aluno atual está inserido. Hoje, comumente os alunos encontram-se inseridos em famílias formadas por pais separados, onde geralmente os filhos são cuidados e educados pelas mães; o mesmo ocorre com a morte do pai, na qual a mãe assume a paternidade, associada à maternidade; famílias formadas pelos avós que criam, sustentam e educam os netos; filhos convivendo com madrastas e padrastos; mães solteiras. famílias de casais homossexuais; ou mesmo, alunos que têm como seio familiar uma instituição ou abrigo social, Organizações Não Governamentais ou entidades que servem como "depósito" de crianças abandonadas ou negligenciadas pelos familiares e até infratoras cumprindo medidas sócio-educativas ou não, frutos da marginalidade social que se instala devido a perda ou a não ter valores morais bem definidos devido a esta desestruturação familiar ou a não existência da mesma. Um aluno pertencer a determinado tipo de estrutura familiar, seja saudável ou não, constitui-se a realidade deste aluno, assim como seu universo de vivência, pois é deste ambiente familiar que provém a formação que o aluno possui até ingressar na escola, assim como é deste contexto social que provêm: facilidades e ou dificuldades, traumas e anseios, respeito ou agressividade, motivação ou apatia, enfim, problemas e formas de caráter que acabam influenciando e determinando o grau de facilidade/dificuldade para a educação escolar.
Dentro da família existem problemas que afetam direta ou indiretamente a criança, refletindo-se no desempenho escolar. Neste caso, um trabalho conjunto entre família e escola pode, sem dúvida, ajudar a criança a vencer as dificuldades. Os problemas mais comuns existentes na família e que podem interferir na aprendizagem são: separação dos pais [...] morte dos pais, parentes ou amigos que serviam como referência para a criança [...] superproteção - filho único [...] enurese [...] vícios infantis, que são distúrbios de comportamento provocados pelo uso excessivo e inadequado das drogas e do álcool, entre outros. (JOSÉ e COELHO, 2002, p. 188-189).
Importante é o que coloca Vasconcellos (2001, p. 75) a esse respeito:
Acusa-se muito hoje a família pelos problemas educacionais, esquece-se, no entanto, de perguntar por que isto está acontecendo com a família. A meu ver, dois fatores influenciam fortemente a situação da família: a concentração de renda no país e a ânsia de consumo. Isto traz como conseqüências: o homem tem que trabalhar mais (seja como forma de sobrevivência, seja para alimentar o padrão de consumo de bens supérfluos), a mulher vai para o trabalho, há a preocupação com desemprego e resta menos tempo (quantitativo e qualitativo) para a convivência familiar. O autor cita dois aspectos importantíssimos e que têm influenciado muito as relações entre pais e filhos, no seio familiar, que são: a ânsia de progresso financeiro, de enriquecimento, a fim de poder consumir cada vez mais, e, acima de tudo, para poder compensar os filhos com presentes, com brinquedos e equipamentos eletrônicos, com bem-estar material, como se assim pudessem substituir a falta de atenção e a educação familiar que são indispensáveis para o desenvolvimento de seus filhos, e a qualidade das relações familiares entre pais e filhos, onde os pais se tornam mais permissivos para preencher sua ausência na vida dos filhos. Na verdade, além destes aspectos apontados por Celso dos Santos Vasconcellos, um outro mais importante, tendo por base as reflexões do Psiquiatra Içamí Tiba (2002), merece maior atenção: trata-se da insegurança dos pais quanto à melhor educação a orientar a seus filhos, uma vez que foram educados aos moldes tradicionais, rigorosos, onde o pai era a figura imperiosa e dominante, dotado de autoritarismo - para melhor expressar a educação familiar das décadas passadas. No entanto, o momento atual exige uma paternidade mais maleável, mais aberta, à base do diálogo, da atenção, de autoridade sem autoritarismo, fator este último que os pais não sabem utilizar, ou mesmo se negam, para compensar os filhos de suas omissões, de suas ausências, de seu abandono como pais presentes no lar e no seio familiar. Para Tiba (2005, p. 36):
As estruturas familiares ficaram confusas nestes últimos anos. As referências e os papéis de pai, mãe e filhos perderam-se no meio do caminho. Os pais não querem que seus filhos tenham a mesma educação que receberam e, por isso, lhes dão liberdade para que façam o que têm vontade, deixando-os de lado. Quando sentem que estão perdendo o controle da situação utilizam-se das frases que ouviam de seus pais. É comum a mãe dizer ao filho: "Você vai ver quando seu pai chegar..." ou mesmo o marido que coloca as responsabilidades em cima da esposa com a frase: "Onde você estava quando o menino fazia isso?". É tanta a confusão que, na hora de demonstrar autoridade, o pai retrocede, se perde e erra. [...] Essa tendência atingiu quase todas as famílias atuais.
Os pais estão confusos quanto à forma de educar seus filhos, oscilando entre a formação que receberam e a liberdade que consideram necessária nos tempos atuais e a culpa pelo pouco tempo junto dos mesmos. Utilizar o modelo de obediência exigido no passado não serve mais, mas, por outro lado, liberdade em demasia também não funciona, sendo necessário um meio termo, ou seja, dar carinho, atenção, dialogar e estabelecer limites, fazer com que os filhos compreendam que todos, em uma família, são importantes, e que cada um - tanto os pais, quanto os filhos - têm funções e responsabilidades, compensações e alegrias que precisam ser compartilhadas e respeitadas, cumpridas e obedecidas, porém cada um de acordo com sua fase de maturidade: os pais como adultos e educadores; os filhos, como crianças ou adolescentes e educandos, que precisam ser amparados, acompanhados e orientados, respeitados e amados. A criança, ao desenvolver-se, alterna fases de dependência (principalmente da figura da mãe) e, ao mesmo tempo, de ânsia por independência, que precisam ser adequadamente orientadas para a conquista da autonomia. Este ensinamento tem sido um dos piores a ser praticado pelas famílias, que insistem em sentir necessidade de dominar os filhos para protegê-los, enquanto que as crianças sentem necessidade de também inferir seus ideais, de saberem descobrir aquilo que desconhecem e anseiam explorar.
[...] Esse processo não é fácil. Torna-se complexo pelas alternâncias de rebeldia e dependência. Para que este rompimento seja vantajoso, o indivíduo precisa inserir-se num círculo mais amplo que esteja pronto a aceitá-lo [...] Esse afastamento deve dar-se em direção a uma área maior [...] É neste momento que a escola entra na vida da criança e à Orientação Educacional compete fazer esta leitura tanto com professores quanto com a família, incentivando-os a ajudar a criança na sua autonomia, tornando-se capaz de dar passos rumo à liberdade de pensamento e ação (MIRANDA, 2001, p. 69).
Que os pais estão sentindo dificuldade em educar seus filhos é um fato, mas os fatores que os levam a sentir tal dificuldade precisam ser vencidos, resolvidos, abolidos da relação familiar, pois
[...] na construção de um lar, na difícil construção da família, na constante luta por um lar verdadeiro, os pais têm uma responsabilidade insubstituível. É preciso que eles próprios reencontrem o seu papel. É mais do que prover os meios econômicos e materiais. É mais do que trabalhar "fora" para conseguir sobreviver. É algo que cria o clima, que favorece as relações profundas das pessoas, é marca de amor e de orientação, educação. Pais e filhos, querendo-se família, precisam aceitar e enfrentar os desafios de construir, cada dia mais, um lar de educação (PUHL, 2001, p. 21-22).
Antes da educação escolar, a educação familiar é imprescindível para orientar valores e parâmetros que dêem sentido e base à vida da criança. Em muitas situações, as crianças e os adolescentes não enfrentam a vida como poderiam fazê-lo, dentro de suas potencialidades porque não aprenderam a dar um real sentido ao viver ou não encontraram razões para lutarem por um estilo de vida e por uma personalidade e caráter que os engrandeça como seres humanos e cidadãos.
A educação é um processo tão complexo que não pode prescindir da ação de um fator tão essencialmente influente no crescimento e configuração da pessoa como é a família. A família é um âmbito insubstituível de gestação; é um sistema de relações desde a aceitação de nossa singularidade. Na família há afeto, há reconhecimento, há intimidade. E este processo de personalização exige um clima de acolhida, um clima estimulante para crescer e amadurecer. Só na intimidade da família somos aceitos pelo que somos e não pelo que fazemos ou por nossos resultados. Somos aceitos como originais, únicos e como somos (PUHL, 2001, p. 20-21).
A família estrutura e desenvolve o sentido de formação moral, de organização e de trabalho nos filhos, desde a mais tenra idade, e a escola complementa, transformando informações em conhecimento e socializando a criança para um melhor viver com seus pares. Para que essa união Família-Escola ocorra de forma harmoniosa, é determinante a importância que os pais dão à educação escolar e à escola, pois essa visão que a família orienta aos filhos acerca da escola influi fortemente o modo como os filhos valorizarão os estudos ou se desinteressarão por eles. "O grau de estima e de valorização que se dá, em família, aos estudos, é um gerador de motivação ante o aprendizado escolar" (PUHL, 2001, p. 25). Por ser o aluno a principal meta a ser atingida e beneficiada no contexto escolar, é importante ressaltar que a atuação compartilhada da escola com a família dos alunos deve se constituir num momento qualificado, cheio de oportunidades de reflexão, de trocas e aprendizagens, onde a escola possa contar com o apoio, o incentivo, a participação e a confiança dos pais ou responsáveis pelos alunos, para que possa conduzir sua prática pedagógica de forma desafiadora ao aluno, levando-o sempre a buscar novos conhecimentos e a desenvolver habilidades formativas, questionando o mundo em que está inserido. A escola, na sociedade contemporânea, cada vez mais tem reconhecido a dificuldade que enfrenta ao tentar educar integralmente, percebendo o quanto é difícil trabalhar valores e atitudes educativas quando a sociedade impõe valores contrários dando exemplos péssimos como os que vemos diariamente na televisão, e quando não há uma base familiar que tenha formado, moral e eticamente, os alunos. Verifica-se que é inútil esperar que a escola desenvolva valores e atitudes que a família não assume como próprios. Não é possível pensar uma educação integral onde um espera que o outro solucione os problemas, onde cada um não faz a sua parte e onde as pessoas não modificam seus hábitos arraigados de não-envolvimento e não-participação. Mas, em relação às obrigações da escola,
[...] o nosso desafio é construir novas relações no interior escola, onde pais, alunos, funcionários não sejam meros executores de parcelas nas ações educativas, mas sujeitos coletivos capazes de apropriar-se da concepção e do planejamento integral da escola. É preciso superar o funcionamento compartimentado, autoritário e excludente, onde os alunos apenas estudam, pais acompanham precariamente a vida da escola, funcionários cumprem rotina e professores atuam isoladamente (PARO, 1999, p. 124).
Muitas transformações vêm acontecendo na sociedade, nos últimos tempos, e à escola, neste novo cenário político-social, cabe uma reflexão acerca de suas responsabilidades no sentido de formar e preparar o cidadão para a socialização, que é sinônimo de muitos desafios no seu viver diário nas interações pessoais e profissionais. Este refletir deve inserir-se além de seus limites físicos e estruturais, de seu interior institucional, e voltar-se, também, ao mundo exterior nas quais seus clientes - os alunos - estão engajados, essencialmente na Família, procurando, assim, uma relação entre educação familiar e educação escolar, com a conscientização da família também no sentido de unir as responsabilidades com a Escola para favorecer uma educação integral ao cidadão do futuro. Segundo Paro (1999, p. 80), "uma proposta educacional compartilhada e apoiada pela família dos educandos tende a refletir uma realidade que é própria do contexto escolar e adequada ao sujeito aprendente: o aluno". Como lembro-me dos relatos de meu pai, por muito tempo, a família e a comunidade escolar, como um todo social, não era permitida nenhuma participação efetiva na educação escolar, pois essa era imposta, anti-democrática e servia aos interesses político-sociais de grupos detentores de poder (como na época da Ditadura). No entanto, aliado às constantes transformações desse Terceiro Milênio, o ensino passou a instituir uma gestão democrática, o que significou um beneficiamento da participação da comunidade escolar, através das associações de Círculo de Pais e Mestres - CPM, mesmo que esses, a princípio, tenham tido uma participação ínfima nas decisões escolares, restringindo-se mais a atender as necessidades materiais e sociais da escola. Uma gestão realmente democrática, que compartilha responsabilidades e sucessos, ressignifica o trabalho pedagógico para professores, alunos e demais funcionários que convivem na escola diariamente e que vivenciam concretamente o currículo daquela instituição, além de engrandecer o ser humano, também em relação à família, estimulando-a a agir com responsabilidade na escola, a favor de uma educação de qualidade, agindo, assim, como verdadeiros cidadãos responsáveis pelo futuro dos alunos e das gerações futuras. Cury (2003), em sua obra "Pais brilhantes, professores fascinantes", destaca que:
Nos dias atuais, os pais participam pouco na vida escolar de seus filhos; os educadores apontam como fatores o novo modelo familiar no qual os adultos permanecem pouco tempo em casa em conseqüência da sobrevivência familiar (CURY, 2003, p. 54).
Como já foi referido, muitos pais estão apenas "criando" seus filhos, sem educá-los para a vida, para o convívio com seu próprio interior, muito menos para o convívio em sociedade, sob a alegação da falta de tempo, pois são provedores do sustento material dessas crianças e adolescentes, como se para o ser humano sobreviver bastasse apenas conforto material e assim desde a tenra idade, crianças ficam aos cuidados das escolas de Educação Infantil que têm a incumbência de cuidar e educar os pequenos dentro de um padrão ao qual fazem parte, estendendo-se para os Anos Iniciais. Tiba (2005, p. 3) muito bem expressa essa alegação da falta de tempo por parte dos pais para que efetivem uma educação familiar indispensável à formação da personalidade dos filhos:
A convivência familiar diminuiu muito: as crianças vão para a escola muito cedo, as famílias convivem mais com amigos do que com parentes. A convivência familiar estaria bem menor do que a social. Isso está fazendo falta na formação do adolescente. A educação ideal é aquela que, mesmo que mudem as circunstâncias, a gente consegue passar. Não é porque tem a falta de tempo que não se vai educar. Mais do que convivência, é preciso que os pais acordem para o desenvolvimento da capacidade relacional dos filhos. Os pais acabam fazendo com que os filhos sejam só usufruidores do relacionamento, e não cooperadores. E, nesse ponto, não é falta de tempo que faz com que os pais pulem uma etapa. É falta de conhecimento, primeiro, e depois de aplicar realmente o que funciona, que é o seguinte: criança, quando nasce, recebe amor gratuito e dadivoso. Quando está na hora de aprender, amor que ensina. Depois que ela aprendeu, tem que fazer, que é o amor que exige. Os pais não exigem nada dos filhos e querem que depois saiam para as ruas e façam o que ensinaram. [...] Esse negócio do tempo é uma certa desculpa porque depende do que se dá de privilégio. Como o pai tem tempo de jogar futebol, ficar fazendo coisas fora do trabalho, e não tem tempo de ficar com o filho? [...] educação é fundamental e exige dedicação, talvez até mais do que o próprio trabalho.
O que a escola espera da família, dos pais ou responsáveis pelos alunos, é que cumpram com sua parte de responsabilidade pela formação integral do aluno/filho/cidadão, pois cada segmento tem sua parcela a contribuir e a ser cumprida em termos de educação. Althuon comenta que(1999):
"Os pais não podem delegar responsabilidade única e exclusivamente para a escola, e a escola não pode eximir-se de ser co-responsável no processo formativo do aluno"(p.50).
Uma das grandes queixas por parte da escola é que os pais não estão educando seus filhos naquilo que se refere às noções básicas de condutas, de valores éticos e morais, à valorização das emoções e interações humanas, ao respeito a si mesmo e aos outros com quem convive, ao estabelecimento de limites e responsabilidades, entre outros ensinamentos na qual os alunos já deveriam ter incorporado antes de ingressarem na escola, para que, através da educação escolar, sejam aprimorados e acrescidos de conhecimentos culturais e formadores de um cidadão apto a agir e interagir em sociedade. Hoje o que percebo, é que nossa sociedade, começando dentro do seio familiar (tradicional), está individualizada: quando a família está em casa, o filho está em frente da televisão ou computador, a mãe, em outro local da casa com suas ocupações e o pai, revendo os trabalhos do serviço em seu notebook... perdendo de se ter realmente as trocas necessárias que uma família deve ter... as crianças aprendem o que vivenciam. Em minhas experiências na área da Educação Infantil, uma maneira comum para atrair os pais para a vivência escolar de seus filhos é de utilizar os projetos pedagógicos, convidando um familiar (mãe, pai, tio/a, avós) para contar a história de sua família, de recordar as antigas brincadeiras do seu tempo de infância, como foi o processo de escolha do nome dos filhos, e também para explicar as diferentes organizações familiares em que se encontram. Estes momentos de integração são fundamentais pois os familiares vêem como é importante falar de perto com as crianças, sentar junto delas, ouvi-las e para os educadores, são momentos preciosos pois assim conhecem melhor a vivência familiar de seus alunos, seus contextos, e assim elaborar projetos de acordo com os interesses desta comunidade. Em suma, alguns dos importantes compromissos da família em direção à formação dos filhos/alunos são: dar prioridade à comunicação, ao diálogo, favorecendo abertura para questionamentos e mudanças; e, contribuir, com muito amor e desprendimento, a cada momento, na construção de um ser independente, criativo, livre (capaz de fazer escolhas), justo e feliz. A escola deve cumprir com suas obrigações para com a educação integral de crianças e adolescentes, bem como unir-se às famílias, sem somente a elas atribuir o insucesso ou as dificuldades que vêm se acumulando quanto à formação escolar, seja em Educação Infantil ou Anos Iniciais.
[...] Os pais têm sentido dificuldades para educar seus filhos e entendem que a escola, que é uma instituição que educa, é quem tem este dever. Mas a maioria das escolas não é preparada para isso. Para elas, o aluno é um simples transeunte curricular. Os filhos são para sempre. E os danos e prejuízos quem vai pagar com a má-educação dos filhos são os próprios pais. [...] Se o pai diz vinho e a mãe diz água, o filho "disanda". É a mesma coisa: se a família diz vinho e a escola diz água, o aluno "disanda". É importante que as pessoas que estão ligadas à educação de uma criança tenham o que eu chamo de "coerência, constância e conseqüência". Não adianta o professor só jogar a culpa para casa, nos pais, quando, na escola, ele também pode fazer alguma coisa. A divisão entre as tarefas é muito tênue na área limítrofe, mas no centro as coisas são muito claras. A escola tem de chamar a família toda vez que a obrigação não está sendo cumprida e, por sua vez, a família deve ir à escola toda vez que a obrigação escolar não está sendo cumprida. É a educação, que eu chamo, a "seis mãos", que é aquela que é feita à base do carinho e da razão por parte dos pais, das mães e da escola (TIBA, 2002, p. 185).
E mais: "Construir o sucesso na visão do homem que se realiza e que ajuda a construir um mundo novo, a 'civilização do amor', é o compromisso da família e da escola" (PUHL, 2001, p. 29). Pais, alunos e professores formam uma família quando a missão é formar o aluno/cidadão, portanto precisam empenhar-se e ajudar a aprender e a contribuir na formação dos alunos. Quando os pais colaboram com a criação de um clima de amizade, respeito e estima pelo professor, o docente reveste-se de calor humano necessário e motivador para levar em frente a sua missão de educar, utilizando-se da Pedagogia do afeto, e assim desenvolvendo condições favoráveis à aprendizagem e correspondendo aos anseios dos pais. Quem ganha com essa sadia relação entre a família/ escola são os alunos e a sociedade em geral,num mundo que precisa urgentemente rever a esperança, força motivadora para causar transformações importantes em nossa sociedade, e se desvencilhar deste isolamento que o sistema capitalista nos impõe, através da perda da vivência familiar e das interações sociais, da falta do lúdico, da concorrência e competitividade, da violência; da geração shopping consumista e robotizada pela tecnologia, num mundo caótico que se assemelha a uma grande vitrine com seus contrastes e desigualdades sociais e econômicas. A relação família/escola deve ser repensada, envolvendo mais interesse quanto a forma que vem sendo tratada e orientada pelas escolas, onde as mesmas devem criar melhores estratégias para trazer a família para seu universo, tornando-a plenamente participativa no processo educativo de seus filhos. Portanto, através desta revisão bibliográfica, juntamente com situações de minhas vivências profissional e acadêmica, reforço em dizer sobre a importância da parceria entre instituições tão distintas (Família/Escola). É preciso com que façamos o resgate da humanização através da educação, da união Família/Escola, não delegando tais responsabilidades só para uma ou outra destas instituições. È um processo lento que já começa a ser trabalhado com as novas gerações, a dos nossos filhos e alunos, e que com certeza, estas sementes, darão bons frutos.
REFERÊNCIAS
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MIRANDA, Rita de Cássia Jannotti. Orientação Educacional - Qual o lugar da família? In: Revista de Educação - AEC. Ano XXI, N° 08, Mai./Jun, 2001.
PARO, Vitor Henrique. Administração escolar: introdução crítica. São Paulo: Cortez, Autores Associados, 1999.
PUHL, Antônio. A família constrói o sucesso. In: Revista de Educação - AEC. Ano XXI, N° 08, p. 19-29. Mai./Ju, 2001.
TIBA, Içamí. Família S/A. Revista Inovação Empresarial. Ano XI, nº 135, Agosto/2005.
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XAVIER, Maria Luisa M. [Org.]. Disciplina na escola: enfrentamentos e reflexões. São Paulo: Melhoramentos, 2003.
[1] Acadêmica da Disciplina de Metodologia da Pesquisa em Educação, do Curso de Pedagogia, do Centro Universitário Metodista - IPA, turma PDN 51. ² Orientadora e professora da Disciplina de Metodologia da Pesquisa em Educação, do Curso de Pedagogia, do Centro Universitário Metodista - IPA. |
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